Escolher uma trilha pela foto do mirante ou pela quilometragem costuma terminar em frustração. Segundo Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, a dificuldade de uma trilha resulta da soma de vários fatores, e a distância é apenas um deles. Desnível, terreno, sinalização e exposição ao sol ou ao vento podem transformar um percurso curto em uma jornada exaustiva, ou tornar um trajeto longo acessível para iniciantes.
Dificuldade de trilha vai além da quilometragem
Oito quilômetros em terreno plano e oito quilômetros com 800 metros de subida são experiências completamente distintas. A diferença está no desnível acumulado, que corresponde à soma de todas as subidas do trajeto, e não apenas à diferença entre o ponto de partida e o ponto mais alto.
Uma referência clássica para estimar o tempo de caminhada é a regra de Naismith, criada no fim do século 19 por um montanhista escocês. Ela considera uma hora para cada 5 quilômetros no plano e acrescenta mais uma hora a cada 600 metros de subida. O cálculo não substitui a experiência, mas mostra por que a quilometragem sozinha subestima o esforço.
Terreno, sinalização e exposição
O tipo de piso pesa tanto quanto a inclinação. Uma trilha batida e larga exige pouco além de fôlego, enquanto pedras soltas, raízes, lama e travessias de rio pedem atenção a cada passo e reduzem a velocidade média, mesmo para caminhantes experientes. Trechos de escalaminhada, em que é preciso usar as mãos para avançar, elevam o nível técnico mesmo em percursos curtos.

A sinalização define o quanto o caminhante depende de orientação própria. Algumas rotas brasileiras já contam com marcações padronizadas, como a pegada amarela e preta da Rede Brasileira de Trilhas. Em outras, a ausência de placas exige mapa, GPS ou conhecimento prévio. Na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, a exposição também merece atenção, já que longos trechos sem sombra, sem fonte de água ou à beira de encostas aumentam o desgaste e o risco.
Como funciona a classificação técnica?
No Brasil, a norma ABNT NBR 15505-2 estabelece critérios para classificar percursos de caminhada no turismo de aventura. A avaliação considera quatro aspectos: severidade do meio, orientação no percurso, condições do terreno e intensidade do esforço físico. Cada um recebe uma nota de 1 a 5, o que permite comparar trilhas de forma mais objetiva. Operadoras de turismo de aventura e alguns parques passaram a adotar a escala na divulgação de seus roteiros.
A vantagem do sistema está em separar dificuldades de natureza diferente. Uma trilha pode exigir pouco esforço físico e, ainda assim, ter orientação complexa, sem marcações claras. Outra pode ser bem sinalizada e muito cansativa. De acordo com Daugliesi Giacomasi Souza, ler as quatro notas, e não apenas uma média, ajuda a identificar qual desafio o percurso realmente impõe e qual preparo ele exige de quem pretende percorrê-lo.
Do próprio preparo ao percurso escolhido
Conhecer a classificação só faz sentido quando o caminhante avalia com honestidade o próprio condicionamento. Quem está começando tende a se sair melhor em trilhas curtas, com pouco desnível e boa sinalização, aumentando a exigência de forma gradual. Um bom teste é completar com folga uma caminhada de três ou quatro horas antes de encarar percursos de dia inteiro. Também conta a experiência com equipamentos, já que bastões de caminhada, mochila ajustada e calçado com boa aderência fazem diferença em descidas longas.
A época do ano, por sua vez, altera o grau de dificuldade. Chuvas de verão deixam o terreno escorregadio e elevam o nível dos rios, enquanto o inverno reduz as horas de luz disponíveis e torna as madrugadas mais frias nas regiões de serra. Uma trilha classificada como moderada na estação seca pode se tornar bem mais exigente depois de dias seguidos de chuva. Conforme sugere Daugliesi Giacomasi Souza, contratar condutor local em rotas desconhecidas e avisar alguém sobre o trajeto e o horário de retorno são cuidados que acompanham qualquer nível de trilha.
